quinta-feira, novembro 20, 2008

Ensaio sobre a Cegueira

Esta semana estive em reflexão sobre o filme Blindness, adaptação do livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago.
Este filme era aguardado por mim com alguma ansiedade, pois tinha adorado o livro e mal conseguia esperar por ver o que Fernando Meirelles, realizador interessante que nos deu A Cidade de Deus e O Fiel Jardineiro, iria conseguir fazer com esta obra-prima da literatura portuguesa.

Sabendo que as minhas expectativas eram elevadas, entrei na sala de cinema com a consciência de iria assistir à visão de Meireles e não necessariamente à minha, dando assim espaço para que a obra se revela-se.
Apesar desta minha disponibilidade não deixei de ficar um pouco decepcionada. O realizador que nos provou ser capaz de caracterizar personagens interessantes nos seus primeiros filmes, falha aqui exactamente nisso. Na minha opinião este filme não é um filme de personagens interessantes, as relações que elas estabelecem são pouco desenvolvidas o que faz com que algumas cenas sejam descontextualizadas e percam as suas intenções, por exemplo, no fim o pedido do homem de olho vendado à prostituta não se percebe, a não ser que se tenha lido o livro e se conheça melhor a história.

Mas não me apetece fazer aqui uma crítica exaustiva sobre a película, creio que há outras coisas boas que fazem valer a pena ir ao cinema ver o filme, por exemplo, a caracterização dos espaços está muito conseguida e Meireles entrega-nos um ambiente pesado e imundo, sem regras e sem valores, bem inspirado da visão pessoal de Saramago.
Quando li o livro, há muitos anos atrás, houve alguns assuntos que permaneceram na minha mente durante muito tempo, o conceito político das sociedades actuais, as necessidades que temos de regras e de organização, mas depois de ver o filme houve algo que me saltou à vista e que sobre o qual nunca tinha pensado.
O que nos move a ajudar os outros? Será altruísmo ou egoísmo? E quando eles já não necessitam de nós, como nos sentimos? Livres ou abandonados?
Este filme debruça-se muito sobre a perspectiva da mulher do médico, o seu papel enquanto manipuladora de tudo o que acontece com os cegos, de como ela consegue anular-se pelo marido mas, ao mesmo tempo, acabar por o comandar. Em verdade, quando li o livro não me fui capaz de identificar com uma única personagem, facto, creio, intencional pois nenhuma tem nome, falta-lhes esse lado individualista, mas desta vez a ligação com esta mulher é inevitável. Afinal ela é a única que vê, como nós (será que vemos mesmo, não estaremos todos cegos?).
Assim, não posso deixar de reflectir sobre estas perguntas. Ajudamos mesmo os outros por opção ou por falta dela? O que iria fazer aquela esposa sem o marido? Ela teve mesmo escolha ou foi por não saber o que fazer sem ele que foi acompanhá-lo? Estava mesmo a ser altruísta ou foi por puro egoísmo? Habituada a ser dona de casa e a fazer apenas isso, a esposa vê-se rodeada de gente que precisa dela, há uma situação em que ela pode dar o melhor que é capaz de fazer, ajudar na lida da casa.




Mas e quando tudo terminar, se terminar, será ela capaz de encontrar o seu lugar num mundo novo ou regressará à sua inutilidade de fazer tiramisú para alguém que nem sabe distinguir tiramisú de uma tarte? Ficará livre para continuar a sua evolução individual ou ficará destroçada, pois já não tem mais controlo sobre eles, já não é mais precisa?
E nós, saindo da personagem, estamos prontos para libertar as pessoas que de uma forma ou de outra dependem de nós? Filhos, pais, irmãos, amigos, namorados, maridos? Estaremos prontos para o momento em que nos apercebemos, "já fiz o meu trabalho aqui, agora é momento de me virar para mim"? Ficaremos plenos ou vazios?
Apesar de acreditar que só perante as situações poderei saber como vou reagir, acho que fazer o exercício de visualização e colocarmo-nos nessa situação poderá ajudar a clarificar quem queremos ser. Por isso, creio que por muita dor que isso pudesse provocar, o desapego é sempre árduo, nesse momento é importante pormo-nos nos sapatos do outro e compreender a situação na perspectiva do outro. Se conseguirmos fazer isto, em qualquer situação de crise, conseguiremos sempre revelar a nossa tolerância e agir de forma altruísta.
Enquanto mulher temos papéis muito definidos na sociedade, cedo nos tornamos na dona de casa, na ajudante das lides domésticas, na amiga conselheira, na mãe que cria o filho, na educadora, enfim, como mulheres vamos crescendo cheias de dependências. Mas a todas também é dada a oportunidade de emancipação, ou aceitamos o nosso papel e a nossa escolha é permanecer essa mulher, ou escolhemos ser diferente e libertamo-nos. Nem sempre é fácil, mas nada é impossível quando a nossa Vontade está bem direccionada.
Atenção, este questionamento não é realizado para ninguém em particular, são divagações provocadas por um filme. Se ajudar alguém a questionar-se a si próprio, melhor, senão, tudo bem!

Num dia de São Felix de Valois, São Edmundo e de Saquiel, Regente da Energia de Júpiter

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