sexta-feira, janeiro 23, 2009

A história de Psique

É com enorme prazer que dou início a uma das minhas paixões, a mitologia. Já falei um pouco sobre ela quando fiz os textos dos chakras, mas nunca lhes dei um espaço por inteiro. Hoje isso finalmente acontece, obrigada Salamandra pois em parte foste a mola impulsionadora para que isto acontecesse, quando fizeste a tua partilha sobre Vénus recordaste-me de um projecto antigo que eu tinha em mente. :)

A história de Psique chamou a minha atenção, pois ela pode ser encarada como a própria história da alma humana na sua descida ao círculo das gerações e a sua intenção de regressar à casa do Pai.
Faço-vos o convite de me acompanharem pela história de Psique e Eros e depois reflectir sobre se é ou não uma possibilidade a frase anterior. Preparados???

Aqui vamos...

Psique era uma linda jovem e a sua beleza trazia ao palácio de seus pais muitas pessoas vindas da Grécia e arredores para se deliciarem com tamanha Beleza.
Um dia, quando seus pais gabavam a sua filha, dizendo que ela era mais bela do que a própria deusa do Amor, Afrodite irritou-se e enviou o seu filho Eros para a picar com uma das suas setas, fazendo com que ela se apaixonasse por um homem desprezível, realizando assim um casamento infeliz. Contudo, Psique já era infeliz, pois não havia ninguém a amá-la por quem ela era, todos a adoravam e só viam a sua beleza. Desta forma a jovem mostrava que era muito mais do que bela, ela era pura de coração. As suas irmãs já eram casadas e Psique ainda vivia em casa dos pais, infeliz. Estes começaram também a ficar preocupados por ninguém querer casar com a sua bela filha e foram consultar o oráculo de Delfos. Eis o que Apuleio diz ter sido o veredicto no seu livro O Asno de Ouro:

Que com seus belos adornos a virgem abandonada
Espere sobre uma rocha um casamento fúnebre.
O esposo não recebeu o dia de um mortal:
Ele tem a crueldade, as asas do abutre;
Ele destroça corações, e tudo que respira
Sucumbe, gemendo, sob tirânico império.
Os deuses, no Olimpo, arrastam seus grilhões.
E o Estige contra ele defende mal os infernos.

Na altura, todos consideraram que aquilo era uma pena dada por Afrodite, invejosa da pequena jovem. Porém, lá foi a coitada e os seus pais desgostosos para a montanha, dando cumprimento à profecia. Quando os pais saíram chegou Zéfiro que a elevou para o cume da montanha, aí Psique verificou que estava numa linda e maravilhosa paisagem onde tudo era mágico. Música suave tocava, os seus desejos eram preenchidos por mãos invisíveis, belas imagens preenchiam os seus olhos, o seu coração estava deliciado, mas nada de ver o seu marido. À noite, quando se deitou no leito de núpcias, foi um homem que subiu para a sua cama e não um monstro, mas, como tudo estava escuro, ela não conseguia ver a sua figura. Psique começava a sentir-se apaixonada por alguém que nunca vira com os seus olhos, mas que sentira profundamente.

Um dia o marido avisou-a de que as suas irmãs a vinham ver, mas que ela não lhes devia dar ouvidos. Todavia, perante os seus gritos e lágrimas, Psique pediu a Zéfiro que as fizesse subir a sua casa. A inveja invadiu o coração das irmãs de Psique, pois tal era a sua felicidade, então, procuraram uma forma de destruir o seu casamento. Quando descobriram que Psique ainda não tinha visto o seu marido, instigaram-na a fazê-lo insistindo que ele só poderia ser um monstro. Ainda por cima Psique estava grávida e quando ouviu as irmãs insinuarem que o seu marido iria comer o seu filho, Psique ficou convencida de que teria de o ver.

Nessa noite, enquanto o amado dormia, Psique acendeu uma candeia e ficou maravilhada a olhar o homem esbelto que dormia sereno ao seu lado, Eros. Enquanto ela se deliciava, descuidou-se e uma gota de óleo quente caiu no ombro do amado, fazendo-o despertar. Eros começou a voar mas Psique conseguiu segurar-se a ele. Este teria agora de se afastar, estando ferido não poderia enfrentar a sua mãe Afrodite. Mas o verdadeiro perigo, porém, era que a sua mãe iria descobrir que Eros lhe tinha desobedecido e ainda por cima casado com a inimiga. Afrodite seria implacável e Psique teria muita sorte se conseguisse sobreviver, ainda por cima grávida. Eros nada poderia fazer. Psique caiu na Terra e aí começaram os seus dias de amargura em busca do seu ser amado.
A nossa heroína ficou tão miserável que se tentou lançar a um rio, mas o deus do rio, reconhecendo-a como a mulher de Eros, não a deixou suicidar-se. Andou a pedir ajuda às deusas, primeiro a Hera, deusa do casamento, depois a Deméter, que conhecia a dor de ter perdido uma filha, Perséfone, mas nenhuma estava disposta a enfrentar a ira de Afrodite. Esta finalmente

encontrou-a e decidiu fazê-la sofrer deixando-a acreditar que seria possível regressar para junto de Eros se fizesse umas tarefas que ela indicaria. Contudo, Afrodite sabia que essas tarefas eram impossíveis para uma mera humana, mas assim passaria por boazinha e Psique sairia derrotada.
Como primeira tarefa a deusa pegou em várias sementes de espécies diferentes e lanço-as ao chão, até ao anoitecer, Psique deveria tê-las separado. Começou a sua tarefa prontamente para cedo se aperceber que não tinha tempo suficiente. As formigas do palácio, contudo, tiveram pena da mulher de Eros e ajudaram-na. A tarefa fora cumprida com a ajuda das pequenas e insignificantes formigas.
Irritada e desconfiada de que teria de certeza tido ajuda, Afrodite dá-lhe nova tarefa: ir aos campos onde os cordeiros de ouro pastam e trazer um punhado de fios da sua lã. A tarefa mais uma vez parecia fácil, até que Psique viu que os cordeiros tinham grandes chifres e que facilmente a magoariam. Sentou-se junto a um rio que ali passava, triste e desolada, ouviu de repente um silvo. Uma cana do riacho disse-lhe que se ela esperasse pela noite, os cordeiros ficariam mais dóceis, pois eram os raios do sol que os enfureciam, mas de noite ela poderia passear junto a eles e colher dos espinhos e das silvas os fios de lã que lá ficassem presos. Foi assim que mais uma tarefa foi cumprida, desta vez Psique tinha tido a ajuda de Siringe, a amada de Pã disfarçada de cana.
Afrodite, mais irritada do que nunca, e cada vez mais desconfiada da ajuda dos deuses dá-lhe a última tarefa: ir ao Rio Estige e trazer água da sua nascente, lugar onde nem os deuses se atreviam a ir. Contudo a tarefa tinha indicações bem precisas, deveria ir ao cimo das montanhas, de onde a água caía da escarpa antes de penetrar no mundo dos mortos e a água deveria ser do meio do rio e não das margens. E ai dela que a tentasse enganar, pois era bastante fácil de perceber se a água era das margens.

Quando Psique chegou à escarpa compreendeu melhor a missão, havia dragões de ambos lados do rio e novamente pensou em desistir e matar-se. Todavia, a águia de Zeus andava por ali e viu-a, mesmo quando Psique se preparava para correr para os dragões. A águia lembrou-se de quando Eros a tinha ajudado e, por isso, retribuiu, pegou no cântaro de Psique e foi buscar a água ao meio do rio. Assim, conseguiu ela vencer a última prova com a ajuda da águia.
Afrodite contorcia-se de raiva, todos os deuses estavam a conspirar contra ela. Decidiu então mandar Psique ao mundo dos mortos, lugar onde todos podem ir mas ninguém sair, com a certeza de que desta vez Psique não conseguiria. Esta deveria trazer alguma da beleza de Perséfone para Afrodite.

Desta vez a melhor solução que Psique encontrava era mesmo matar-se, seria sem dúvida a melhor forma de ir para o mundo dos mortos. Subiu a uma torre para se lançar quando esta começa a falar consigo. A torre deu-lhe todas as indicações do que seria preciso fazer para ir e vir sem correr perigo. Deveria levar bolos de cevada para dar a Cérebro, duas moedas para Caronte a levar no barco, não podia dar ouvidos às suplicas de ajuda e se lhe pedissem para se sentar poderia fazê-lo mas apenas no chão, nunca num trono. Além disso só poderia comer pão e beber água. Se ela assim fizesse Perséfone dar-lhe-ia uma caixa com a sua beleza, mas Psique nunca poderia abri-la. Conseguiu passar todas as provas, foi surda aos pedidos de ajuda, mesmo aos das crianças, lembrou-se dos conselhos da torre e seguiu até Perséfone que lhe deu uma caixa com a sua beleza. Quando regressava, porém, as suas dúvidas começaram a surgir e pensou em retirar apenas um pouco da beleza de Perséfone para ficar mais bela para o seu amado. Ao fazê-lo descobriu uma caixa vazia, com o ar do submundo, que quando inalado a fez tombar inerte no chão. Por essa altura Eros já havia recuperado e agarra a sua amada e leva-a para o Olimpo. Aí pede a Zeus que dê a imortalidade à sua Amada e enfrenta a sua mãe. Zeus cede e dá a ambrósia a beber a Psique que ganha umas asas de borboleta e permanece no meio dos deleites divinos com o seu amado.

Viveram e vivem ainda felizes, pouco tempo depois Psique dá à luz a Volúpia.

Não pensei que esta história fosse ficar tão longa, mas intusiasmei-me por ela ser tão linda. A reflexão sobre esta história e a história da alma humana ficará para outro dia, até lá digam de vossa justiça sobre esta partilha! A que vos inspira? Que ensinamentos encontram? Acham que se pode encontrar semelhanças com a história da alma? Aguardarei os vossos comentários e de certeza que irei aprender muito com eles.

Num dia de São Raimundo, São Ildefonso e de Anael, Regente da Energia de Vénus
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