quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Uma história de tempos antigos

Hoje vou-vos contar uma história...permitam-me, pois é sobre os meus Antepassados, tomei a liberdade de preencher com a minha imaginação algumas partes que estavam em branco, mas a essência, essa permanece a verdadeira.

Reza a lenda que numa noite fria e escura, onde nem a luz enigmática da Deusa bastava para indicar o caminho, os meus avós saíram da sua aldeia a trote num burro para levar a minha mãe ao médico na cidade mais próxima. Por caminhos sinuosos, encruzilhadas e veredas, o meu avô ia sempre olhando para trás, revelando uma desconfiança fora do comum. A minha avó, mulher vigorosa e anciã como sempre foi, aconselha-o a não o fazer, pois era uma noite perigosa e pelo adiantado da hora andavam à solta todo o tipo de seres fantásticos.
O homem, ainda desconfiado, foi tentando resistir à tentação, mas o seu medo foi maior e olhou para trás depois de passar uma encruzilhada. Diz-se que aquilo que viu foi tão tenebroso que nem conseguia pronunciar uma palavra para o descrever, percorrendo o restante caminho a tremer de medo. Nessa noite acabaram por permanecer na cidade, por ser muito tarde, mas acredito que fosse apenas pelo medo. Contaram-me os meus pais que cada vez que ele tentava falar sobre essa noite, depois de muita insistência dos filhos, entrava num mundo de delírio tão grande que ninguém queria acreditar. Até que houve um dia em que ele se confessou...
Diz ter visto um ser de três cabeças, numa apenas havia uma boca, noutra os olhos e na outra os ouvidos. A cabeça com a boca disse-lhe:
- Se algum dia falares sobre o que viste, ir-te-emos buscar.
A cabeça dos olhos registaram todos os seus traços e os ouvidos, ouviram a sua respiração e o bater do seu coração, capturando a sua essência. A partir daquele dia, Bernardo estava condenado a viver em medo...
Dizia a minha avó que ele nunca mais fora o mesmo desde essa noite, entrando em mundos obscuros de visões e alucinações. Ainda hoje o meu pai diz que era espantoso, passava o dia inteiro com ele no trabalho e era uma pessoa normal, mas quando se aproximavam de casa e mal o meu avô via a minha avó, lembrando-se daquele episódio, refugiava-se numa loucura bizarra.

Tudo o que me resta do meu avô Bernardo são este tipo de histórias mirabolantes, que tentavam justificar uma esquizofrenia que mais tarde se veio a revelar em outros homens da sua família. Esquizofrenia ou não, sei que elas contribuíram para um portefólio alucinante de histórias do nosso folclore, fazendo parte daquilo que sou hoje, uma mulher que acredita em todas essas histórias. Compreendendo que muitas delas poderão ser justificadas por um simples argumento racional, mas prefiro acreditar na magia por detrás de todas elas.

E vós? Não acredito que nenhum de vós não tenha ouvido uma destas histórias dos seus avós ou de outras pessoas mais velhas da família?
A minha história de infância está repleta delas e muitas noites de Verão foram preenchidas assim, no quintal debaixo da luz da lua a ouvir o meu tio mais velho a contar essas lendas e mitos de monstros, lobisomens, bruxas e seres malignos. Reza a lenda que a minha avó era a sétima filha...será que permaneceu na família?

Num dia de Santo Amaro, São Paulo Eremita, São Romeo e de Saquiel, Regente da Energia de Júpiter
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