quarta-feira, abril 07, 2010

Da Lua à Morte renasce um novo Ser de Luz

Finalmente e depois de grande ansiedade e desejo, chegou o Alegria. relembro é a Viagem de duas semanas, o fim de Março e o início de Abril. Vamos lá num regresso ao passado!
Quando Alegria acordou daquela noite de purificação sentiu que o seu interior estava diferente, mudado. A sua mente estava clara e calma, o seu coração sereno e confiante. Mas havia algo que ele ainda não conseguia rotular, uma sensação diferente. Dentro de si germinava algo, o quê, ainda não sabia.

Sentia-se focado, toda a sua energia estava direccionada para um novo empreendimento, mas a verdade é que ainda não sabia qual era. Uma certeza residia, porém, era algo concreto que iria terminar com a divisão do seu ser em mental e emocional.

A Sacerdotisa aproximou-se e sorriu, dizendo apenas com o olhar como estava feliz por o ver restabelecido. E o quanto o amava.

«Estamos todos a preparar a festa da Primavera. Quererás encontrar algo em que possas ser útil?»

Alegria olhou à sua volta e viu todas aquelas pessoas atarefadas, carregando comida, bebida, madeira, roupas e flores. Os animais deambulavam livremente pela praça, as crianças corriam umas atrás das outras com grinaldas nas mãos. Imediatamente sentiu um impulso, dirigiu-se aos homens que cuidavam da madeira e ofereceu a sua ajuda.

Toda a tarde se dedicou a cortar a madeira para as fogueiras dos ritos que iriam acontecer nessa noite. Sentia-se em casa, uma sensação como há muito não tinha, nem mesmo quando estava na casa onde crescera. Apesar de saber que dentro dele algo morrera, estava feliz, muito feliz. Sentou-se um pouco a beber cidra e deu por si a observar os homens com quem estivera toda a tarde a labutar.

Curiosamente não havia reparado em como as suas características físicas eram similares às destes homens que acabara de conhecer. Enormes, musculados, devido às tarefas exigentes daquela vida, barba cerrada e olhos escuros, estes homens eram de facto muito parecidos com Alegria. Seriam eles também antigos Caminhantes que aqui se quedaram a descansar da viagem?

Enquanto os observava deu por si a pensar que se essa fosse a forma que o seu aspecto iria tomar até nem estaria muito mal.

«Serei um Cavaleiro servente do Graal muito diferente daquele que imaginei no início deste caminho.» E riu-se recordando a imagem do Eremita que inicialmente imaginou e esta. Como havia mudado. E como rejubilava por ter compreendido essa mudança e permitido que ela acontecesse.

A noite do ritual havia chegado e Alegria poderia assistir, ainda não se sentia preparado para participar nos ritos, desejava apenas assistir como fizera numa outra vez. E assim foi.

A noite estava perfeita, quase irreal de tão similar com as imagens que ele virá em livros de magia. Tudo no seu lugar, como se tivesse sido preparado ao milímetro. Até o seu lugar era perfeito, não muito longe do círculo de forma a poder ver sem estar dentro dele.

As Sacerdotisas chegaram com as suas vestes azuis cristalinas, com as tiaras usadas em respeito pela sua tradição. As suas caras eram solenes e o público, inspirado por elas, modificou o seu comportamento. Cada gesto executado, desde o empunhar a vara para fechar o Círculo ao aspergir o lugar para purificação, era perfeito, exímio na sincronização. Aquilo era um sonho.

Mas Alegria não sabia o que o esperava, essa sua atitude de apenas assistente estava prestes a ser alterada. Quando o Ritual da Primavera teve início, Alegria foi empurrado para dentro do círculo por um cotovelo irreconhecível. Ao pisar o terreno sagrado tudo se modificou.

A Sacerdotisa deu lugar a uma figura mefítica cuja presença o deixava aturdido. Reconquistando o equilíbrio, ganhou força para a encarar e quiça descobrir que fora uma partida dos seus sentidos.

«Muitas vezes afirmaste que seguirias o Graal onde quer que ele te levasse e assim cumpriste. Outras tantas foste chamado de Louco e Sonhador mas continuaste afirmando que servirias o Graal nem que essa fosse a tua Morte. Pois eis-me aqui e agora para cobrar essas palavras. Estás pronto para morrer?»

«Sou esse Cavaleiro do Graal que anuncias. Não sou Louco nem Sonhador, apenas sigo a minha visão de mim próprio. Já bebi do Graal e por ele estou disposto a morrer sim!»

«Assim seja!» E de um só golpe a figura da Morte ergue o seu Bastão e, carregando-o com o máximo de poder possível, inicia a descida que irá retirar a vida do corpo de Alegria.

Este, num breve nanossegundo, recorda todas as ajudas que teve dos Irmãos do País da Luz e a certeza instala-se no seu ser, também agora eles não lhe falharão. Todavia, o seu cérebro é invadido por um pensamento latejante. Havia ainda tanto que desejava fazer, o Graal havia sido provado mas ainda poderia oferecer mais, não era a sua altura de morrer.

Quando encarou a figura hedionda que o ameaçava ela havia desaparecido. Na sua frente estava Ela com aquele olhar de quem está feliz por o reencontrar, como se não se vissem há muito tempo.

Estende-lhe a mão dizendo « Que alegria nos dás por teres voltado. Finalmente te reconhecemos e estamos prontos para dar início ao Ritual com a tua companhia. Sê Bem-vindo!». E todas as cabeças se baixaram em reverência ao Sumo-Sacerdote que havia chegado.

Assim foi a viagem da Lua à Morte empreendida pelo nosso Peregrino. A minha foi bastante similar, aprendi a aceitar a minha Lua, deixei de temer os sonhos e as irrealidades, confio em mim. No fim, tudo se resumiu a uma dança interior onde se transmutou o velho em novo, usaram-se as antiguidades para construir art déco.

E vós? Sentistes a Lua, germinou algo em vós? Aceitaram o convite da Morte e dançaram? Foi uma bela viagem esta, valeu a pena a espera?

Na primeira hora de Sol do dia de Mercúrio, S. Epifânio, S. Elvira
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...