domingo, abril 18, 2010

De Senhor do Prazer a Senhor da Obra Perfeita

Nesta semana alucinante, com uma quantidade de celebrações e de partilhas amorosas, Alegria andou às voltas com confrontações. Vamos lá ver o que a Temperança nos ensinou.
Com os novos cargos atribuídos Alegria não podia deixar de pensar que a perfeição era um dos seus objectivos. Ambicionava alcançar a perfeição do Amor, que esta nova comunidade conseguisse através dele chegar àquele estado perfeito, acabado. Os ritos deveriam ser tratados com perfeição e não apenas com prazer.

Sentia, porém, que muito trabalho era exigido. Aquelas pessoas com quem se encontrava agora estavam habituadas a um determinado padrão de comportamento, agiam sempre de maneira pré-formatada e ele queria mudar. Como poderia alterar os seus comportamentos sem os forçar. A insatisfação havia ganho algum terreno na sua personalidade ao longo destes poucos dias. O grupo precisava de sofrer mudanças de estado para que pudessem trabalhar em conjunto.

Precisaria da ajuda de alguém. Alguém que conhecesse estas pessoas há mais tempo, que o soubesse guiar nesta nova empresa. Alegria não queria entrar em conflitos e sabia que teria de ser prudente, agindo de forma equilibrada para poder operar as mudanças necessárias.

O Pajem surgiu e não esperou sequer que Alegria explicasse os seus motivos e desatou a apontar dedos e a fazer julgamentos.

«Porque razão queres agora mudar aquilo que até aqui estava a funcionar tão bem? Não sabes que se alguém têm de mudar terás de ser tu? Exiges mudanças quando tu não as fazes?»

Do centro da sua barriga um ardor começou a manifestar-se. Alegria sentia uma concentração de energia e sabia que aquela ira se estava a formar. Se o Pajem continuasse talvez Alegria não fosse capaz de se controlar. Respirou fundo e tentou falar num tom neutro para evitar mais conflitos.

«As mudanças são necessárias. Sou o Sumo-Sacerdote escolhido por vós, seria de esperar que confiassem em mim. Acredito que os ritos devem ser levados a cabo com uma grande dose de emoção, mas constatei que a vossa emoção vos tolda a Vontade de Perfeição. E isso não poderá continuar. É imperativo para a comunidade aprender a almejar o Perfeito, nessa via encontrarão a Emoção mais Perfeita de todas. Por isso quero que mudemos.»

O Pajem não teve reacção. Aquelas palavras ecoaram dentro dele e as suas vibrações operaram a mudança de consciência necessária para esta tarefa. Sentiu a Verdade daquela missão.

«Ter-me-ás ao teu dispor sempre. Lamento a minha impetuosidade, mas como protector do Vale tinha de agir.»

«Assim espero que o faças sempre. Todavia, deves recordar-te que serves o Graal e não o Vale.»

O Pajem saiu e Ela entrou na pequena cabana circular do Sumo-Sacerdote.

«As tuas mudanças estão a provocar um grande alvoroço. Creio que seria importante explicar-lhes os teus motivos. A Liberdade sempre foi um dos valores que nos uniu, eles sentem que lhes estás a impor novos valores e a menosprezá-los, retirando-lhes autoridade.»

«Não posso. Pois cada um deverá usar essa liberdade para tomar a sua decisão. Aceitar ou recusar o que proponho. Se fosse lá fora, facilmente os convenceria, mas a escolha é deles. Eles devem, sozinhos, decidir.»

«Arriscaste a que muitos se oponham e continuem a realizar os ritos como faziam antes.»

«Isso fará também parte da experiência. Alguns de nós só poderão escolher quando experimentarem as duas hipóteses. Alguns precisam ainda de provar para saber. Mas confio que depois disso compreenderão que aqueles que buscam a perfeição se começam a destacar daqueles que apenas buscam o prazer. E isso será a prova suficiente para que escolham mudar.»

«Não consigo ver o fim dessa tua narrativa, mas confio naquele que escolhemos para nos guiar. Seja feita a tua Vontade»

«A Nossa, pois a minha não existe sem a Vossa. Agora vamos. Comecemos os preparativos para a celebração do Touro, de certo que esta busca será mais fácil agora.»

Questionamentos exteriores, algumas oposições à nossa Vontade, mas espero que no fim tenham sido capazes de exercer a vossa Vontade com muita diplomacia.
Houve cura em algum ponto da vossa vida?
Deste lado do espelho relembrei, mais uma vez, como é bom confiar em alguém, que não há problema nenhum em ser guiada de vez em quando.

Na primeira hora de Lua do dia de Sol, S. Gualdino
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