sexta-feira, abril 30, 2010

Uma História de Amor

No dia de Ritual da Fecundidade, partilho a história da manta de retalhos co-criada por todos os que sentiram vontade. Que a energia aqui gerada seja reconduzida para honrar e curar a Grande Mãe, foi por Amor e em Amor a ela que a criámos.

A aventura de criar uma história a partir de uma imagem foi empreendida pelas seguintes almas generosas (por ordem alfabética):








Desta aventura saiu uma história mágica. Fiquei tão feliz e achei a actividade tão produtiva que provavelmente irei realizar o desafio mais vezes e também vos faço a sugestão. Criem um cenário, um início ou uma personagem e deixem que os vossos amigos dêem seguimento, serão surpreendidos!!!



Algures nos arredores de uma terra longínqua, há muito dominada por um Imperador cruel, havia uma criança que sonhava com outras terras. Imaginava campos cheios de flores, pássaros pousados nos ramos de árvores frondosas, muito coloridos cantavam hinos de alegria. Para a criança tudo isto não passava de sonhos irreais, afinal ela nunca conhecera tamanha beleza, na sua terra tudo era cinza, consumido pela poluição e pelo desrespeito à Grande Mãe.

Um dia a criança acordou com um som que nunca tinha ouvido tão perto dela. Era o cantar de um passarinho muito colorido, que pousou na sua janela.

"Já não temos muito tempo. Anda." - Sebastião nem queria acreditar! Chegou a pensar que ainda estava a dormir e a sonhar com aves pequenas que falam."Traz apenas a chave que encontraste na praia naquele dia em que começou a chover de repente quando a apanhaste do chão. Tudo o resto deve ficar. Vamos voar..."

A chave era mágica, ela abriria um portal místico de onde viriam fadas e anjos , que iriam ajudar a restaurar a paz e a harmonia, esquecidas durante o reinado do Imperador. E a menina acabara de descobrir ter sido escolhida, pela pureza de seu coração para abrir este portal.

A menina, com o seu coração carregado de emoções saltou pela janela, atrás daquela linda ave que voava diante de si...Seu coração batia forte como um tambor, latejando em seus ouvidos... A chave, estava bem apertada, envolta em sua mão. Sentia os dedos latejarem, tal era a força com que a segurava, absorta por uma espécie de medo de a perder durante a jornada.

Começaram a cair as primeiras gotas de chuva, trazidas pelos céus cinzentos de um dia quente... De repente, a ave pousou sobre uma velha e majestosa árvore... Havia dias em que a menina costumava brincar ali, imaginando a sua terra um mundo mais belo, cheio de árvores verdes e frondosas e animais de todas as formas e cores... Sonhos!... Seriam... Realidade?!... Avançou lentamente para a árvore, apertando a chave contra o peito, e sentindo as primeiras gotas escorrerem por seus longos cabelos...
Foi então que, pela primeira vez, sobre aquela velha casca, que tantas vezes abraçou, reparou em algo que nunca havia visto antes...

'... como era possível o Sebastião estar ali?' foi o pensamento da menina, lembrando-se que fora ele quem lhe pedira para se apressar. Afinal, era para ela poder conhecer um sítio mágico.

"Vieste..."- disse Sebastião segurando as mãos frias, e ainda trémulas do vôo, daquela que juntamente consigo devolveria a lembrança aos Homens. Percorrera muitos céus em busca de Isa, desde a manhã em que a ave do paraíso o havia acordado. Foi às cegas. Foi confiante. Aceitou a missão. Sabia apenas que a detentora da chave da Porta do Conhecimento teria uma madeixa de cabelo azul a cair-lhe sobre a face iluminada por dois olhos negros e grandes que consigam ler as almas das pessoas.

E agora ela estava ali. Com a chave.

As duas chaves estavam assim reunidas...de novo.

... e ainda que reunidas era preciso sabedoria para usá-las. Quem poderia trazer-lhes tais conhecimentos? Nem todos os inocentes estão preparados para conhecer as maravilhas de um novo mundo, assim como o ignorante não está para seguir uma nova trilha como um cego que anda à beira do abismo. Havia ainda outro Anjo a ser invocado, bastava chamar, Ele apenas esperava, só poderia ajudar se fosse invocado, estava no inconsciente colectivo de todos os seres mas nem sempre era lembrado...

..."Um Anjo para ser invocado!", pensou a menina, enquanto voltava a lançar um olhar para as duas chaves que segurava na mãos trémulas...

Uma ligeira brisa tocou-lhe no rosto ao de leve, como que a acaricia-la, numa espécie de afago de coragem!... A chave em tom de cobre, havia-lhe sido passada pela sua falecida avó materna. Dizia ela, que existia um lugar onde as Fadas e os Anjos guardavam um poder mágico tão belo e tão forte, que poderia transformar o mundo num lugar maravilhoso!... E ela, com seus olhos negros brilhantes, muito arregalados, e sua longa madeixa azul, escorrendo por sua testa, até lhe acariciar os lábios, ouvia tudo absorta por toda aquela magia do conto e da imaginação...

"Avó!... Esse lugar existe mesmo? E os Anjos e as Fadas..."

..."Minha querida! Quando as duas forem uma e dessa uma vier Um... Então sim! Esse lugar existirá com todas as suas forças!"...

E na última vez que lho contou, deitada convalescente na sua cama, onde três dias depois iniciou a sua "viagem" para "ir voltar a dançar sobre a lua" como costumava dizer com aquele sorriso tão brilhante e meigo, entregou-lhe aquela pequena chave de tom cobre... que agora fazia par com a chave cor de prata que Sebastião lhe entregara!...

- Quando as duas forem uma e dessa uma vier Um... Então sim! Esse lugar existirá com todas as suas forças... - disse baixinho, examinando ambas as chaves.

Voltou a lançar um olhar sobre o velho tronco da árvore, onde um pequeno buraco, que parecia muito fundo, parecia examinar a pequena viajante, agora molhada dos longos cabelos até aos pés...

Foi então que uma ideia surgiu em sua mente... "Quando as duas forem uma"...
Então aproximou ambas as chaves uma da outra e deixou que um grito de espanto lhe fugisse da garganta quando viu as pequenas duas chaves, como que se ganhassem vida própria, unirem-se, restando agora apenas uma chave maior, em tons de cobre e prata...

- E os dois se vieram a tornar uma! - bradou Sebastião muito satisfeito do alto do seu ramo

...A menina tremia... mas já não sabia se da chuva, se dos nervos que abraçavam todo seu Ser interior!...


Com a imagem nítida da sua avó a dar-lhe coragem, a criança cerrou os olhos para a ver outra vez.

"Assim seja!" e colocou a chave na pequena fechadura que aquela árvore mágica continha. Sebastião colocou a mão sobre o ombro esquerdo de Isa e os dois ficaram deslumbrados, boquiabertos, incrédulos perante a descoberta feita...

Perante os dois viajantes, abriu-se um porta da qual provinha uma luz maravilhosa... Desta surgiu um ser feminino, como a menina e Sebastião nunca haviam visto... Seus cabelos eram longos e envoltos num tom verde, mais verde que as folhas das árvores, seus olhos eram de um azul como nunca antes vira, seu corpo era longo e formoso, seu rosto era sereno, suas vestes eram longas e de um branco imaculado...

"Eu vos saúdo, escolhidos!", saudou, quase sem mover os lábios, num tom de voz tão belo e sonante, que parecia fazer saltar os corações de quem se atrevia a escutar...

"Já é longo o tempo do nosso sono... mas eis que chegou o dia do despertar... O dia que nos era tão aguardado!"

A menina conseguiu suster a respiração, arranjar forças e perguntar num tom rouco e quase sumido:

"És um anjo?"...

"Sou a Guardiã da Terra... Aquela que vocês humanos baptizaram de "Mãe Natureza". Eu era a responsável pelo equilíbrio natural da ordem da Terra, até o dia em que um dos vossos antigos Imperadores, conseguiu, através da reunião das energias negras, trancar-me e a toda a minha classe de trabalhadores, dentro desta Árvore Guardiã, o último refúgio das Energias Brancas da Terra! Se não viermos a ser libertos, este planeta maravilhoso poderá conhecer seu trágico fim!"...

A menina nem queria acreditar em tudo que ouvia!... Era aquela a Guardiã da Terra?! Aquela que poderia transformar o seu planeta num lugar maravilhoso, cheio de animais de todas as formas e cores e de árvores verdes e frondosas, flores de todas as cores?! Oh!, que maravilha! Como gostava que sua avó estivesse ali para ver... Mas ela já estava a "dançar sobre a lua"!...

Mas, porque dizia Ela "se não forem libertos"?... Não estava já a porta aberta?...

"Não minha pequena!" - respondeu, para seu espanto. Podia Ela ler pensamentos?! - "Ainda não está finalizado o nosso acto de libertação! A conclusão do teu ritual ainda não foi concluída."

A menina olhou então para Sebastião, mas este limitou-se a devolver-lhe o olhar, em silêncio... Parecia que aquela missão dependia apenas de si!... Que poderia agora ela fazer? O que estaria a faltar?...


“Aproxima-te Sebastião. Assumiste a tarefa e tudo tens feito para que seja cumprida. Perseveraste e encontraste. Assim é com aqueles que confiam no que dizem as vozes. Aprendeste com o medo a vencê-lo e com fome a ficar mais forte. Deixaste o mundo que te era conhecido em busca de uma visão. Aqui todos vibrámos ao compasso da tua pulsação quando pousaste os teus olhos pela primeira vez naquela da madeixa azul que te aparecia em sonhos.

Foi um momento que grande alegria... E as fronteiras do nosso mundo alargaram-se. Por cada acto de amor dos humanos nós damos um pulo e ampliamo-nos. E a cada encontro de uma alma dividida nasce uma energia, que vos aparece em forma de passáro, encarregue de guiar outras almas divididas às suas outras partes. Os homens esqueceram-se do Amor, Sebastião. É tua missão relembrá-los.

Baixaram os braços e trancaram o coração. Agora, servem-se uns dos outros e escolhem a solidão que mata aos poucos. O Homem está a morrer por falta de Amor. E nós também. A diferença é que nós sabemos. A ti cabe-te levar a verdade. Tens a força. Tens a vontade. Tens Isa que te acompanhará. Ouve-a nas horas mais sombrias pois dela é o Conhecimento.

Por 365 dias deitarás sobre todos os solos a semente do Amor. Por onde passares e com quem te cruzares deverás deixar parte daquilo de que és feito para que cresça e se multiplique mesmo depois de tua partida. Rega com água da Fonte tudo debaixo do céu para possamos unir os nossos mundos. De novo. A escolha é tua Sebastião. Encontrar-nos-emos daqui a um ano.”

E a voz desapareceu ficando no ar um cheiro suave a terra molhada. Choviam pétalas de rosa brancas.


EPILOGO...

"Passou-se um ano... A Terra, lentamente, através da Semente do Amor que foi iniciada por Sebastião e a menina da madeixa azul, a Mãe Terra começou a ficar mais forte... A força que outrora possuía o sequioso imperador, foi-se desvanecendo e, por fim, o seu reinado de terror começou a ruir... As pessoas, tocadas em seus corações por aquele sentimento novo do amor, começaram a amar a Mãe Terra com todas as suas forças... Esse ano passado e tanto a menina da madeixa azul, como seu fiel companheiro de luta, Sebastião, viram todos os seus sonhos e esforços recompensados!...

As árvores começaram a ganhar belas folhas verdes, flores de todas as cores, aromas que impregnavam o ar e inebriavam a mente e os sentimentos... Apareciam animais que há muito haviam fugido para poderem sobreviver...A Terra era novamente um planeta maravilhoso!...

"- Mãe, essa história foi muito bonita!

- Sim, eu sei, minha querida! Tua mãe costumava ler-ma quando eu tinha a tua idade - respondeu a mãe, fechando o livro, de capa vermelha aveludada, onde se via uma antiga foto de uma menina correndo com um guarda sol... e ao fundo, uma linda árvore...

Pousou o livro sobre a mesa de cabeceira e aconchegou a menina entre os lençóis

- Agora, bons-sonhos, princesa! Dorme bem e sonha com um mundo assim!

- Gostei muito da Mãe Terra e da parte que a menina corre na chuva... Mãe?

- Sim querida? - perguntou a mãe, apagando a luz, deixando que apenas o pequeno candeeiro que servia de luz de presença, brilhasse, enviado estrelas azuis e brancas por todo o quarto...

- Como se chama a menina?

- Bem... O livro refere Isa... Mas a tua bisavó costumava chamar-lhe... Shin Tau!...

- É lindo!...E a menina lentamente adormeceu, deixando que o seu Ser Interior viajasse para o mundo dos sonhos, onde conheceu aquela linda menina de madeixa azul, que lhe falava da magia do mundo e da imensidão da existência... De como era bom amar, sonhar e viver de forma sempre bela e maravilhosa!...

Antes de adormecer, a última coisa que viu, foi a lombada daquele muito velho livro vermelho, com sua capa de veludo já muito gasta, e com as palavras douradas que brilhavam sobre a luz das estrelas daquele quarto... "GRIMOIRE"...
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