terça-feira, dezembro 28, 2010

Do Isolamento À Libertação

Alegria tinha saído um bocado da sua reclusão,  decidira que devia ir espreitar o céu de Inverno que se aproximava. Subiu até uma pequena ermida que se encontrava no topo daquele monte, apercebeu-se, então, que a caverna onde habitava estava exactamente por baixo daquele lugar sagrado. 

Ao longe começou a ver a silhueta de um cavaleiro que se aproximava. Alegria ficou um pouco impaciente, mas imediatamente associou a sua saída com aquele encontro, teria de ser importante. 

«Bem-vindo Cavaleiro a esta terra onde as formas mudam e os reflexos não são sempre o que parecem. Para conseguires passar por aqui dever-te-ás perguntar: O que é real numa terra de falsas aparências?»

Na mente do Cavaleiro uma mancha negra formou-se e ele recebeu uma imagem que não foi capaz de partilhar. 

«Sou um Cavaleiro de um Reino perdido, mas, não sabendo bem porquê, sinto que nunca serei outra coisa senão cavaleiro. Sou o último dos meus irmão, nem a Morte me levou.»

Alegria segurou uma pedra e respondeu-lhe: «Eu seguro a cabeça do sacrifício e falo as palavras dos nossos ancestrais. Não vagueis buscando sem destino, mas aquieta-te e questiona porque e como andas. Avança com coragem e procura um teste merecedor da tua força. Vem, descansa comigo. Tenho uma fogueira acesa e um caldo quente. Descansa antes de seguires a tua viagem.»
Alegria acolheu o Cavaleiro na sua caverna, ofereceu-lhe comida, calor e um lugar para dormir. Não era luxuoso, mas era acolhedor. Porém, o Cavaleiro começou a agir com alguma arrogância e Alegria não gostava do que via e tinha de ouvir.

«A energia segue o pensamento. Porque te aprisionaste aqui? Não deixes que o orgulho ou o medo do que os outros pensam te mantenha aqui. É um lugar frio, inóspito para alguém viver. Há quanto tempo te auto-flagelas aqui?»

Alegria hesitou. Não queria ser mal-educado, mas aquele à-vontade excessivo deixava-o pouco confortável. Analisou-o e deixou que este continuasse a falar, dando-lhe assim oportunidade de melhor buscar as suas palavras. E eis que se lembrou:

«Disse-te há pouco para não andares a divagar e te aquietares buscando, sim, no teu interior, os como e porquê. É o que faço aqui.»

«Viver longe dos outros, daqueles que te põe à prova é fácil. Estás escondido de tudo e de todos, aqui só te tens a ti e aos teus pensamentos. Mas como a energia segue o pensamento, só vives o que crias. Deverias é viver no meio do Mundo e não fora dele.»

Alegria ficou irritado. Aquele cavaleiro estava a tirá-lo do sério. Quem se julgava ele?!?
Deitaram-se e a conversa ficou a pairar no ar. Aquelas palavras inesperadas deixaram-nos em estado de meditação.

Adormeceram assim que fecharam os olhos, a pedra era dura, mas emanavam um calor agradável.
O Mundo começou a escurecer, os barulhos de quem andava em dança no topo do monte pararam, as vozes  silenciaram-se. Alegria sonhou.
Estava no meio de um ritual na comunidade de Isis. Estavam todos alegres, dançavam e comiam, falavam os homens alto das suas conquistas mesmo neste tempo frio e as mulheres das suas aprendizagens nos templos. 
Uma das sacerdotisas aproximou-se e tocando-lhe nos cabelos revelou:

«Arranja o que está partido.Defende as tuas fronteiras. Lê os sinais do tempo. Recolhe as tuas forças para a tarefa. Não temas o mal de amanhã, mas segue o caminho um dia de cada vez.»

As suas palavras lembraram-lhe as do Cavaleiro e o seu questionamento. Porque não o calará? Estaria ele a duvidar se se devia manter ali? Oh, como estava a ser imprudente. Era óbvio que as palavras o tinham afectado pois estava na hora de seguir em frente. O isolamento estava terminado. Era momento de reencontrar uma comunidade e fazer o que mais prazer lhe dava - aprender em Amor com todos.

«Na vida há muitas batalhas, muitos obstáculos para serem transpostos. Combate comigo e verás que a jornada à tua frente se torna mais fácil. Mostrar-te-ei os teus verdadeiros motivos.» 

Estes foram os últimos pensamentos de Alegria, antes de acordar. Quando abriu os olhos deu com uma imagem pouco acolhedora. O Cavaleiro tinha a espada em riste preparado para o combater. Alegria compreendeu que a batalha que teria de travar era consigo próprio e, por isso, tocou na espada e disse:

«Podes ficar tu aqui. Chegou a minha hora de partir. Não lutarei por algo que não faz sentido. Tu precisas mais disto que eu.»

E assim partiu.Levando apenas consigo os utensílios para os ritos. 

Na segunda hora de Sol do dia de Marte, S. Ursano, Santos Inocentes
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