sábado, dezembro 04, 2010

O isolamento do Eremita


Alegria estava novamente a caminho. Seguia vagarosamente pois as suas forças estavam a começar a desvanecer, mas estava determinado a não parar. 

Enquanto andava pensava nas dependências que tinha, pois neste momento o que mais ansiava era uma boa mesa farta, com uma lareira acesa e uma boa conversa regada de um vinho saboroso. Depois disso, pensou ainda numa cama confortável e numa noite de sono descansado. 

Era inevitável que o seu corpo e o seu espírito almejassem tamanhas comodidades, mas esses desejos não poderia ser satisfeitos, pelo menos, não por enquanto. À sua volta havia apenas terra batida, algumas árvores e nada mais. Ah, como sentia a falta de alguém que o ajudasse a carregar aquele peso que tinha no corpo…

Ao longe, o mais longe que a sua vista conseguia alcançar, descobriu uma sombra. Algo que lhe indicava ser uma entrada. Aproximou-se e para júbilo descobriu uma pequena passagem que dava acesso a uma câmara dentro da terra «Abrigo, finalmente!» pensou ele.

Havia muito tempo que dormia ao frio e a céu aberto, esta noite, pelo menos, poderia sentir novamente o que era ter um tecto a protegê-lo. Essa sensação lembrou-lhe novamente a experiência que tivera recentemente com Isis. E, assim muito facilmente, deu por si a voltar ao passado. Relembrou as noites frias em que se enroscavam um no outro e abraçados adormeciam. Vieram também à sua memória os jantares a dois e com os amigos que davam em casa. Lembrou-se de como gostavam de preparar a árvore de Natal juntos, mas como isso sempre acabava com a construção de uma árvore sui generis. 

E de recordação em recordação, Alegria foi sentido o conforto tomar conta da sua alma e forma. Entretanto, uma sombra começa a tomar forma e Alegria é forçado a sair desse lugar confortável em que estava para retomar a realidade. Do canto direito, sai uma voz profunda e cavernosa, não tivesse ela também um corpo a quem ser associada e poderia dizer-se que era a própria voz da caverna que falava.

«Essas recordações que tão fortemente activas, são por acaso o motor da tua busca? São elas o combustível dos planos que traças no teu novo caminho?»

Alegria compreendeu imediatamente que estava a falar com um Eremita, mas o que ele não sabia é que aquele era O Eremita.

«Tomas-me de surpresa, não sei se sou capaz de te responder imediatamente. Teria de me recordar o que estava a pensar e analisar tudo para ser honesto na minha resposta.»

«A pergunta é simples, apenas foges dela. Tenho cá para mim que tens medo da tua resposta. Largar o passado nunca é fácil, principalmente quando é o único companheiro que temos no caminho. É tão fácil agarrarmo-nos a ele para nos mantermos sãos. Mas o que verdadeiramente tememos é o que está para vir e assim agarram-nos com garras e dentes ao que tivemos. Só que…cada pensamento, recordação, activa um novo trilho na nossa jornada e aparecem, então, as encruzilhadas.»

Alegria sabia que ele estava quase a falar de si próprio, mas não podia deixar de sentir que aquelas palavras encerravam uma aprendizagem importante. O Eremita raramente fala e se este estava a falar ele teria de ouvir atentamente.

«Nessas encruzilhadas tememos as escolhas e paralisamos. Paralisamos pois sabemos, naquele momento tomamos consciência, que temos de escolher entre agarrar a oportunidade nova ou seguir com o peso do passado. Oh, quantos de nós falhamos mais uma e tornamos a Caminhada mais longa por mais uns tempos. Quantas vezes o fiz? Perdi já a conta. Muitas vezes escolhi aquilo que achava que o meu coração desejava. Para depois compreender que era apenas mais um devaneio, uma loucura, uma fuga em frente, uma tentativa de emendar o passado…tudo em vão. Então chega a solidão como única hipótese de consolo. O isolamento para nos conhecermos e depois…as memórias perdem-se, começam a ser criações e acrescentamos um ponto aqui e acolá para que a história fique mais bonita. Quando damos conta, a solidão fez-nos criar um passado completamente novo, que ninguém conhece e que não poderão negar. Aí recriamo-nos e surge, finalmente, a vontade de sair do isolamento. É chegado o meu momento e aqui começa o teu.»

Quase que num transe, provocado pela cadência do seu discurso, Alegria acorda e compreende a verdade. Ele não sabe o que o seu coração quer. A história que o Eremita contou é a sua, sem tirar nem pôr. Ele estava instantes antes a relembrar e a recriar a sua história pessoal, até ser interrompido por este homem misterioso. 

«Tomas o meu lugar?»

«Sim!» responde-lhe sem qualquer tipo de hesitação.


Na segunda hora de Mercúrio do dia de Saturno, S. Barbara, S. João Damasceno
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