domingo, fevereiro 27, 2011

O Caminho da Verdade


Quando o Sol se levantou, Alegria perguntou a si próprio «Qual é o melhor caminho, agora? Qual das veredas deverei tomar?» Alegria sentia-se um pouco como Palomides, eternamente dividido em buscar o Graal ou perseguir a sua amada.

Não valia a pena dar justificações por todas as vezes que desejara estar com ela e se recusara. Alegria simplesmente se escondia por trás de princípios que já nem ele compreendia, mas que usava a seu bel-prazer sempre que necessário para esconder a sua inércia.

Como sempre, decidiu parar e meditar para obter uma resposta mais fiável sobre qual o melhor caminho naquele momento. Sentou-se, cerrou os olhos, controlou a respiração e entoou a canção do fogo...Uma aragem penetrou a totalidade do seu corpo e Alegria estremeceu.

«Muitos chegam até mim exigindo Justiça. A minha resposta é eternamente a mesma e provém da Terra,  obedecendo primeiro às Leis Naturais. O que buscas está dentro de ti e apenas em ti reside a chave dessa porta. Olha para os caminhos e vê qual deles tem mais Luz. Aquele que emanar mais luminosidade será aquele que te levará ao caminho da tua descoberta. Não busque no outro aquilo que ainda não tens. Só tu poderás abrir a porta que se encontra cerrada. Se ela ainda permanece assim, deverás questionar-te sobre se a tua Verdade te está a levar lá dentro ou se o teu medo te mantém à porta.»

O diálogo entre Alegria e aquele Ar que o evadiu durou por muito mais tempo. As perguntas e respostas foram muitas, no fim, Alegria estava exausto e decidiu dormir mesmo ali, debaixo da lua da Lua que era já fraca. No entanto, depois daquela conversa o seu coração estava mais sereno. Ainda não sabia qual dos caminhos iria escolher, mas sabia que seria aquele que o lavaria ao caminho da Justiça.

Quando acordou dos seus lábios saíram as seguintes palavras: «Levanto-me com a esperança da aurora, ao serviço da Justiça. Eu oiço a sua voz e sigo-a onde quer que me guie.» 

Olhou os dois caminhos, distorceu a visão para conseguir ver de outra forma e decidiu. «Irei para aquele! Este caminho é o caminho em que as lutas, as dificuldades, serão combatidas e provocadas por mim. Aqui serei eu a escolher as minhas batalhas e a decidir as minhas derrotas. Escolho fazer o caminho da Verdade, aquele que me levará cada vez mais próximo do meu eu verdadeiro. Isolo-me e não quero rivais. A única pessoa que está no meu caminho sou Eu mesmo.»

Pegou nas suas tralhas e seguiu. Um pensamento bem forte surgiu na sua mente. Ele levantava-se com a esperança da aurora, isso já era uma prática comum, mas agora precisava de reaprender a deitar-se de coração tranquilo. Era importante que as suas más ações fossem corrigidas a tempo e que o coração andasse leve e limpo todo o dia. O deitar seria agora um momento que deveria dar mais atenção.

Era mais fácil quando partilhava a cama com a sua esposa, ela trazia-lhe aquela sensação de calma. Não havia medo, inquietação ou tristeza que perdurasse quando Isis o abraçava no leito. Imediatamente se lembrou que não podia estar à espera de encontrar nos outros competências que ele deveria ter. Era esta a razão principal porque escolhera fazer o caminho que o levaria a estar só.Precisava encontrar as suas armas, todas elas, antes de se dar totalmente a alguém. Só assim poderia partilhar o seu verdadeiro Eu.

Foi nestes pensamentos que Alegria encontrou a Árvore e nela um homem encostado. Todavia, este homem não estava na posição de sentado, estava a fazer o pino. Cabeça no chão, braços em triângulo por baixo da cabeça e as plantas dos pés horizontais em sentido do céu. Sentiu um pequeno sinal de alerta dentro do deu, um pequeno aperto no plexo solar. 

Não obstante, decidiu saudá-lo, cortesia de caminhantes educados, e oferecer a sua ajuda. Mas do outro lado, veio o silêncio. 

Estaria morto? Estaria a dormir? Deveria insistir ou prosseguir a sua viagem? Na verdade apetecia-lhe ficar um pouco a descansar e aquela árvore transmitia energia de tranquilidade. Sentou-se e cumprimentou novamente o estranho. Mais uma vez, silêncio foi o que obteve.
Ali se manteve sossegado durante um momento de longo duração, na verdade quase lhe pareceu uma eternidade. Havia algo naquele homem que o deixava inquieto.

Deu por si a pensar nele. Quem seria e por que estaria em tão desconfortável posição? Estaria a ignorá-lo ou não se apercebera da sua presença, dado a sua compenetração no que fazia? E Alegria continuou a fazer perguntas, para as quais não conseguia resposta, sobre aquele dependurado. Quando os músculos das suas pernas se revelaram mais relaxados, decidiu levantar-se e continuar o seu caminho.
Olhou para trás e, com um sorriso de gozo, agradeceu a companhia. 

Para sua surpresa o Dependurado abriu os olhos, saiu da sua posição, levantou-se e agradeceu-lhe. Ao que parece havia muitos anos que ali estava, pela sua forma diferente de estar as pessoas evitavam sentar-se ali e descansar, apesar da energia positiva que aquela árvore emanava. Ninguém, durante anos se atrevera a permanecer um pouco com ele. E no fundo, era tudo o que ele queria, um pouco de companhia. 

Alegria não sabia, mas o homem conseguira ouvir todos os seus pensamentos. Esta qualidade havia sido adquirida durante os anos em que permaneceu em silêncio e que, pela força da necessidade, aprendera a ouvir os outros de outra forma. Estava tão feliz que nem parecia que não falava há anos. É que a sua prova final neste planeta era essa, conseguir que alguém falasse com ele, mesmo com toda a sua energia de perigo a ser emanada de si.Alegria fora o único que vencera a barreira energética e se sentara. 

O nosso Peregrino sentia-se ridículo pois estivera ali apenas para descansar e no fim ainda gozara com ele. Mas o homem não parava de o elogiar e dizer que ele se devia sentir orgulhoso por ter passado tamanha prova e revelado um espírito tão nobre. Feitas as despedidas e cada um seguindo para o seu caminho, Alegria teve tempo ainda de ouvir: «Estás verdadeiramente no caminho da Justiça! Passaste a prova da Verdade!»

Na terceira hora de Sol do dia de Sol, S. Torcato, S. Custódia
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