terça-feira, maio 17, 2011

Memórias ancestrais - 6 de Copas

A hora nunca mais chega e ela fica impaciente. Não há nada que mais preze do que estes encontros. Olha para a janela e observa o voo dos pássaros, eles indicam-lhe a passagem do tempo. «Será que já embarcaram e eu posso ir segura?» pensa.

Arrisca, já que a vontade é tanta que ela mal se controla. 

Inicia a longa subida que a levará à torre do Eremita. O caminho é duro, cheio de curvas apertadas entre arbustos frondosos e pedras duras instáveis, mas nada a demove. Estes encontros representam a busca do Graal, aquela coisa que ele lhe gosta de falar mas que ela ainda não compreende. Ele fala de forma esquisita, ela simplifica e ensina-lhe a linguagem das gentes comuns, algo que ele já se esqueceu.

Qual será a lição de hoje? Nomes de árvores ou plantas ou será que vão fazer poções. Ela gosta dessa parte das poções, mas nada lhe dá mais prazer do que ir para o meio da floresta falar com as árvores e pedir conselhos sobre que tipo de plantas deve colher para criar a poção que tira os gazes do jantares condimentados da mãe. Elas falam tanto e ela fica feliz, gosta de aprender os seus nomes, não aqueles que ele lhe ensina, Morus nigra, Eucalyptus spp, Carya illinoinensis ..., mas os verdadeiros.

Quando chega ele não está. Espera um pouco cá fora, mas passado pouco tempo desiste, podem vê-la ali. Entra, sobe as escadas e senta-se na mesa de trabalho à espera. Repara que na noite anterior ele estivera a trabalhar naquela poção mágica para curar as maleitas dos olhos. Lê e pensa...um pouco da Eufrásia e talvez resulte melhor. 

«Euphrasia officinalis, será isso?» ouve nas suas costas.

Ele tinha esse dom, surgir sem ser reparado, já para não falar na mania em lhe ler os pensamentos. 

Sem se sentir incomodada, abraça-o. Vê-se o amor que nutre por ele. Ele retribui com um honesto afagar de cabelos. 

«Foi mesmo isso que pensei, por isso saí e fui buscá-la. Hoje vamos preparar esta poção, os meus olhos estão cada vez mais cansados. Chegará o dia em que também tu terás de partir e aí ficarei só, sem olhos, não servirei para nada.»

«Lá estás tu a dizer disparates, nunca sairei daqui. Será mais fácil seres tu a partir que eu. Ainda tenho tanto para aprender, porque havia de partir. Além disso, nunca te quero abandonar.» E nisto agarra-se à sua cintura, num abraço apertado.

Ele, dentro de si, sabe que as coisas não serão assim, mas também sabe que não vale a pena dizer mais nada. Teimosa como é, só serviria para se desviarem do trabalho e começarem uma verdadeira discussão sobre as emoções. Um dia talvez, nos voltemos a encontrar.

Na segunda hora de Lua do dia de Marte, S. Possidónio, S. Pascoal, S. Torpes
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