terça-feira, maio 29, 2012

amor, perfeição, encaixe?

Pedranceiro por Daniel Silvestre da Silva

Companheiros?, perguntou Pedranceiro, à espera que o cão lhe lambesse os dedos. Isso também é bom. Convém não esquecer que toda a natureza é uma única e grande irmandade. Todos os choram e sofrem e, por isso, devem sentir empatia uns pelos outros. 
Isso é o que Fraca-Chicha dizia, comentou Batalha, emocionado.

Quem é esse?

Uma amiga que morreu, disse Batalha, baixando a cabeça e pressionando o peito com as mãos. Ainda...Ainda me dói muito.
Na morte, disse Pedranceiro, sensibilizado pela tristeza da criaturinha, todos os bichos são iguais. Não há mais fortes ou mais rápidos, mais tolos ou mais sábios... Todos são iguais, todos silenciosos. A única voz que resta, capaz de falar por eles, é a nossa, a dos que estão vivos. Devemos lembrar-nos dos nossos amigos e pensar "Bem feito."
Porquê "bem feito", Pedranceiro?, perguntou Batalha, O que é que "bem feito" significa?

Quando um pedreiro assenta um bloco entre os outros, disse o homem de pedra, ele tem de encaixar-se com os restantes: nem maior, nem mais pequeno.Tem que ser perfeito. Nós, pequena pedra-de-toque, somos como os blocos, estás a ver? Um amigo, ou um companheiro, como o teu Rifão, é alguém que encaixa connosco e isso é muito bem feito. Só quem trabalha com a pedra pode perceber o quanto é difícil esse trabalho de encaixe. Pode correr mal de tantas maneiras diferentes, as pedras partem-se, inutilizam-se, não servem para nada. É muito triste não servir para nada. Por isso, pequeno Batalha, deves lembrar-te da tua amiga e dizer"bem feito", porque tu e ela encaixaram. Tu e ela serviram. Isso é uma coisa grandiosa. 
in Batalha de David Soares

Hoje partilho convosco um excerto do livro que me tem feito companhia nos últimos tempos e um autor que me preenche o imaginário como nenhum luso faz. Fiquei imediatamente aprisionada pela sua escrita com Os Ossos do Arco-Íris e envolvida para sempre com A conspiração dos antepassadas (os meus dois mestres vistos e recriados pela mente fértil, negra e visceral de David Soares, como poderia ter eu escapado a tal paraíso terreno?!?) David Soares é um autor a manter debaixo de olho, mesmo. 

Este excerto, em particular, fez-me imediatamente encontrar o propósito dos Amantes desta semana. Reflectir sobre o encaixe perfeito nas relações. 

O que significa encaixar? Sempre ouvi dizer que as relações se constroem. Que são feitas de cedências naturais de ambas as partes. Que são os compromissos que a fortalecem. Que o Amor é como uma flor, delicado e, por isso, que deve ser regado e cuidado com muita atenção.

No entanto, neste excerto parece que me falam de encaixe natural, de perfeição, de alma gémea. De Naturezas. Será isso possível? Haverá mesmo um testo para cada panela? Perfeito e sem falhas. Onde tudo flui com naturalidade e a construção que venha a existir é fruto natural da perfeição de dois corpos que se tornaram um?

E nas amizades? Encaixamos naturalmente ou fazemos também cedências? Polimos as nossas imperfeições para encaixarmos melhor com os outros? Ou estaremos apenas rodeados de encaixes perfeitos? 

Penso nisto e a minha alma romântica, idealista, insufla-se. Que utopia esta onde só estaríamos com aquelas pedras que encaixam certeiramente na nossa morada actual. Onde não teríamos de encobrir a nossa natureza. Ocultar a nossa beleza e a nossa fealdade. Onde seríamos, puros, pedras brutas, genuínas...mas...se assim fosse, onde está a aprendizagem, o aperfeiçoamento? Onde está o ensino nesta utopia? Haveria algum crescimento?

Quantas perguntas. quanta dificuldade em compreender aquilo que é incompreensível. Será que também aqui cada um terá a sua forma de fazer? Eu acredito em encaixes perfeitos, naturais, numa relação. Mas há quem acredite em trabalhar a pedra para que se possa encaixar. Estarei eu errada e o outro certo ou vice-versa? 

Em que acreditas tu? Qual a tua experiência de vida neste assunto? Queres dizer-me?
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