quinta-feira, junho 28, 2012

Para fora e para dentro


Fazer as malas é sempre difícil, mesmo quando é só para um fim de semana prolongado. Contudo, há certos elementos que não podem faltar: chapéu e óculos para o sol, leitura e música para a viagem e momentos de lazer e, claro, uns sapatos confortáveis e uns calções. O notebook?! Bom, este serve mesmo só para poder escrever e descarregar fotografias, não haverá mundo virtual nestes dias.

Música que me acompanha este fim de semana:
Estão criadas as condições perfeitas para uma viagem longa e que se espera intensa, será que a Morte se vai revelar? Seja como for, estava mesmo a precisar!

quarta-feira, junho 27, 2012

A Morte

Ilustração de Daniel Silvestre da Silva
Não é preciso ter medo da morte, disse Batalha, com serenidade.
N-não é precis... Jigajoga engoliu em seco; a sua compleição xantocromática ganhou um tom enrubescido. Por um instante, Batalha achou que ele se ia desconjuntar e ser absorvido pela terra, como uma raiz seca - até os partidários que o ladeavam, à guisa de medulas espinais suplentes, se mostraram preocupados.
B-Batalha, sussurrou Caldaça, pousando uma mão no dorso. É melhor não dizeres mais nada.
Porque é que dizes que não é preciso ter medo da morte?, perguntou Jigajoga, ainda desnorteado. Porque enquanto nós existirmos, a morte não existe, explicou Batalha. E quando ela existir, quem não existe somos nós. Virou-se para a assistência e disse: A morte não é como os gatos, que existem ao mesmo tempo que nós e nos podem comer. A morte só existe quando nós já não existimos, por isso não nos pode fazer mal.
Acreditas mesmo nisso?, perguntou Jigajoga, tremelicante; as grandes unhas vascolejavam umas nas outras.
Acredito, respondeu Batalha.
 in Batalha de David Soares

terça-feira, junho 26, 2012

A Morte liberta-nos

Depois do Solstício e da noite mágica de São João, chega-nos a Morte.
A palavra de ordem da semana é libertar.

É preciso compreender que tudo tem um propósito, por muito pouco tempo que seja a sua duração ou existência. Cada acção, cada palavra, cada gesto, cada símbolo trocado produziu um efeito dentro de nós. Cada pessoa ou situação aparece para nos levar a algum sítio, real ou simbólico. Mas, como a Roda da Vida não pára, tudo o que estava no início chega a um momento em que se encontra no fim. E novamente no início e depois no fim...

A Morte vem lembrar-nos isso. Agora que caminhamos para o nosso interior, nesta fase do Sol Negro, precisamos de nos libertar daquilo que já não nos é útil, aquilo que neste momento só faz volume na bagagem que levamos nesta Jornada. Não é fácil, com certeza que não. Os hábitos são das coisas mais difíceis de libertar, já que eles nos dão segurança, nos fazem acreditar que tudo está controlado.

Porém, chega o momento de abrir mão dessa segurança e elevar o nosso coração, aceitando a energia da Roda da Vida e entrando em sintonia com ela, para que o nosso caminho se cumpra a Grande Obra seja realizada. É o passo em frente ao abismo, o passo da fé.

É neste sentido que a Morte para esta semana chega como uma bênção. Libertemo-nos dos padrões, libertemo-nos das relações que nos afundam, libertemo-nos das ideias velhas e gastas, libertemo-nos de tudo o que já não faz sentido. E aprendamos a caminhar mais leves.

Esta libertação trará alguma dor, efectivamente. Por isso, é importante recordar que a dor, mesmo que ilusória, deve ser vivida e não ofuscada com tentativas de distracção. Não é enchendo o buraco que fica com coisas vãs e irreflectidas que nos curamos. É preciso parar, sentir e carpir. Lentamente e com amor o buraco fechar-se-á, por si só.

Deixo-vos esta semana com o pensamento de Jean-Paul Sartre:

«morremos no exacto momento em que deixamos de ser úteis»

quinta-feira, junho 21, 2012

E mais um ciclo se cumpre.

Celebramos hoje o dia mais longo do ano, o Solstício de Verão.

O Solstício é um período em que o Sol, esse astro venerado desde os tempos ancestrais, essa fonte de vida essencial a todo o ser vivo que habita nesta casa maravilhosa, o planeta Terra, fica "parado" durante um período de 3 dias.
Essa "paragem" do Sol proporciona uma experiência única ao ser vivo. São períodos de reajuste, reequilíbrio para os organismos, de adaptação a novas fases, e, para os seres pensantes, um período de reflexão.

 Neste momento o Sol atinge a sua declinação-Norte máxima e, a partir daqui, o afastamento do Astro-Rei acontece. Este afastamento provoca alterações no campo anímico, pois a energia vital, que se fortalece pelos seus raios, começa a afrouxar, por falta do contacto com o mesmo. A fonte de energia torna-se mais fraca e, inevitavelmente, o ser vivo vira-se para dentro. O mesmo começa a acontecer com toda a vida na Terra. As folhas caem e tornam-se composto para fertilizar o solo. As flores perdem as pétalas e o vento leva as suas sementes para dormirem no interior da Mãe. Os pássaros migram. Alguns animais hibernam.  Tudo começa no lento recolher que culmina no dia 25 de Dezembro, data a partir da qual se dá o movimento oposto com o Solstício de Inverno

No nosso país, é prática  comum fazer a despedida do Sol, esse acontecimento é na noite mágica de São João, o 3.º dia depois do Solstício. 
As fogueiras de purificação, onde se crê que ao pulá-la o corpo fica curado das suas maleita; os pedidos de amor e fortuna feitos com o martelar na cabeça, para que acordemos ou adormeçamos a mente; o alho-porro de São João, na minha terra não havia alho-porro mas queimávamos cardos; e a água benta da Ribeira ou do Côa, são apenas alguns dos rituais que encontramos por todo o país. 

No entanto, para que essa celebração aconteça de forma realmente mágica, é necessário que neste período de 3 dias que é marcado pela entrada do Sol em Caranguejo, o ser humano reflicta no que tem feito, no que tem desejado, no que tem dito e que analise a harmonia da totalidade dos seus campos, que constituem o todo. Só assim poderá a noite executar a sua magia e realinhar-nos.

Para quem quiser consultar o Ritual, basta clicar em cima dele. 

A todos um Verão feliz e próspero!

segunda-feira, junho 18, 2012

Com peso e medida

Esta semana temos a Justiça como energia. A palavra de ordem é integridade.


Que motivação temos escondida em cada acção que iniciamos? Que verdade buscamos? O que fazemos para que as nossas Verdades morais/pessoais/espirituais sejam executadas no mundo onde actuamos?

Depois da Temperança, onde o caldeirão deu uma infusão, é hora de beber desse líquido mágico e banharmo-nos na Verdade e na Justiça. É hora de agir com integridade, imparcialidade e equilíbrio.

Urge analisar, pesar as nossas atitudes na balança da Justiça.

Para esta semana muita cautela, muita ponderação. Não deixemos que os instintos se apoderem da nossa Vontade, é preciso medir o peso do que dizemos, fazemos, desejamos. Tudo, neste Mundo Manifestado, tem uma consequência, estaremos dispostos, depois, a receber o peso delas?

Uma boa semana a todos.

quinta-feira, junho 14, 2012

Gostava de te ter dito isto antes

As lágrimas, expressão da emoção que a tua notícia causou, rolam não pela tua partida mas pela dor que ela deixa em que cá fica. Mas tudo segue o seu curso e a própria dor se irá integrar e passar a fazer parte de quem somos, agora sem ti.

Obrigada pelos momentos de prazer, alegria e partilha.


Que os mestres te tenham acolhido esta noite com muito carinho. Parte nessa nova viagem que agora começas de coração tranquilo, tudo te será perdoado, perdoa também e segue.

domingo, junho 10, 2012

Temperar esta semana

Depois da busca interior com o Dependurado, chega-nos a Temperança, a energia da transmutação.
Returning of Proserpina por Michael Cheval

Que podemos esperar para esta semana? Muita oportunidade para trazer Luz às questões que nos estão a prender, a travar no Caminho, a dificultar o objectivo.

Enquanto que com o Dependurado tudo foi vivido para dentro, experimentado dentro de nós, em busca das nossas respostas singulares, com a Temperança vamos abrir o caldeirão e beber a poção que criámos nesta semana anterior. Que tipo de mistura fizemos? Que sabor lhe demos? Que poderemos aproveitar desta fusão?

As respostas continuam a ser sempre individuais, mas a experiência desta semana será colectiva. Partilhemos o que temos para partilhar. Ofereçamos as nossas experiências aos outros e aprendamos a viver sós mas unidos com todos.

A mudança está aí para quem a quiser aproveitar. Usemos esta energia o melhor que formos capazes e desfrutemos de uma semana muito intensa em termos de reencontros.

terça-feira, junho 05, 2012

Quem canta, sua pedra levanta!

E o que é que tu descobriste?, perguntou Batalha, referindo-se às visitas que ele fazia ao sítio da construção da igreja. O que é que tu descobriste que tens de ser?

Foto de Mars Chen
Descobri que sou uma pedra a meio-caminho de ser um homem, respondeu Pedranceiro, pousando os cotovelos nos joelhos. Eu ouço-os. eu sei que eles também se aperfeiçoam ao construir a igreja deles.
Como é que sabes isso?
Porque eles cantam ao polirem as pedras, disse Pedranceiro. E desbastam as imperfeições deles com as delas. É isso que eu tenho que fazer, mas... Curvou a cabeça. Mas ainda não sei o segredo. Às vezes, fico muito triste e acho que nunca vou aprendê-lo, mas quando me sinto mais confiante vou até à igreja e escuto tudo o que eles dizem. Não me escapa nada. Foi assim que descobri de que pedra sou feito. E passado tanto tempo, tanto que já tive oportunidade para calcorrear todas as montanhas que existem por aqui, por dentro e por fora, pude dar um nome a mim próprio. Foi um grande dia para mim, pequena pedra-de-toque. Suspirou. Um grande dia. Elevando as palmas das mãos, cantou: (...)
in Batalha de David Soares

Que canção cantas tu quando vais polindo a pedra que és? 


segunda-feira, junho 04, 2012

Forgiveness

O Eremita e a Lua Cheia conjunta à minha Lua Natal levaram-me hoje para pensamentos sobre perdão. Não me é difícil perdoar os outros, pois compreendendo-os, aceitando-os como são, torna-se fácil de os perdoar pelo que fazem. Mas perdoar-me a mim mesma, isso é uma conversa completamente diferente.

Não sei se é o meu idealismo que me leva a buscar a perfeição, se é apenas uma incapacidade em aceitar que sou tão humana quanto os outros, o que sei é que me é difícil perdoar pelas atitudes, comportamentos, pensamentos e situações que considero indignas de mim. E cada vez que isso acontece dói-me o coração. Sinto vergonha de mim própria e, fechando os olhos, parece que fico minúscula de tão imunda que me sinto.

Também sei, e a minha reflexão vem a propósito disso mesmo, que quanto mais ressentimento, raiva ou ódio nutrimos por alguém ou por alguma memória de nós, mais ela vai perdurar nas nossas vidas. Sentimentos negativos como esses fazem com que a nossa mente se ocupe em criar mais situações dessas na nossa vida. Acabamos assim por atrair cada vez mais situações semelhantes, até que aprendamos a lição de uma vez por todas.

«É perdoando que somos perdoados.» diz-me São Francisco de Assis, talvez o meu problema seja achar que não mereço mesmo o perdão, que atitudes destas não se coadunam com quem eu sou. Não é possível perdoar-me quando sei que posso ter perdido oportunidades maravilhosas apenas porque não fui capaz de ser mais e melhor...

Haverá algum tipo de salvação possível quando nós próprios somos tão severos? Será que nos perdoam sem que nos perdoemos primeiro? 

O perdão é tão importante, só através dele podemos libertar a mágoa, levantar a pedra e seguir mais leves. Por que razão me é tão difícil de me perdoar?!?! 
"O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício." 
Martin Luther King

Enquanto não me liberto, sou condescendente comigo própria e digo-me «Amanhã farás diferente!» 

domingo, junho 03, 2012

Eremita a energia para a Lua Cheia em Sagitário

É momento de reactivar a nossa Luz Interior. É momento de acender a brasa que se está a apagar e fazer uma chama enorme, capaz de iluminar o caminho, aquecer o corpo e indicar a presença do nosso espírito aos outros.

Pois esta semana temos o Eremita como companheiro de viagem.

She's right there por Jordan Blanchard

A Lua Cheia vai acontecer em Sagitário, activando o que aprendemos na semana dos Amantes, já que esta carta representa a dualidade de Gémeos, signo onde se encontra o Sol e oposto a Sagitário. Os opostos devem ser unidos e essa consumação poderá acontecer já amanhã, durante a Lua Cheia.

Aproveitemos então a energia do Eremita para nos recolhermos e aceitarmos, de uma vez por todas, o que o Caminho nos colocou à frente. Isto é, as escolhas que fizemos e que, por conseguinte, nos trouxeram exactamente a este momento, a este lugar.

Pensando na minha Luz e naquilo que tenho dentro, só uma banda pode ser escolhida como a energia sonora, Radiohead, e, depois de tudo o que foi dito, só uma música poderia ser escolhida: Everything in its right place, do fabuloso álbum Kid A.


A todos uma excelente semana!

sábado, junho 02, 2012

O Amor, Meu Amor e O que é o Amor?

Para concluir a semana dos Amantes, onde andámos bem entretidos nas questões amorosas que ocupam o nosso coração e mente. Fica aqui um vídeo que considerei bastante interessante e um poema de um dos meus escritores preferidos.

Espero que a semana tenha sido proveitosa nestas questões. E que em última instância tenhamos conseguido fazer o casamento alquímico dentro de nós, unido os nossos amantes, mente e coração.


Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto, in idades cidades divindades
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