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Sobre a beleza

Sobre a beleza o meu pai também explicava: só existe beleza no que se diz. Só existe a beleza se existir interlocutor. A beleza da lagoa é sempre alguém. Porque a beleza da lagoa só existe porque a posso partilhar. Se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. A beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. Ele afirmava: o nome da lagoa é Halla, é Sigridur. Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objectos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça po...

O inferno não são os outros

A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. Sem ninguém no presente ou no futuro, o individuo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. Dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. Perece como uma coisa qualquer. Valter Hugo Mãe in A desumanização Na primeira hora de Vénus de um dia de Vénus e de S. Ricardo e S. Romualdo

A desumanização

Por serem ingénuas, as ovelhas levavam os corações puros que apenas suportavam a alegria de comerem do chão sem surpresas. Na primeira hora de Saturno de um dia de Lua e de S. Sebastião e S. Sabião

Aprendizagens

“Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo.” valter hugo mãe in  O Filho de Mil Homens Terminei mais uma obra de Valter Hugo Mãe, escritor português de uma criatividade incomparável,  único na forma e no conteúdo. Já lhe dediquei aqui um post e hoje apetece-me voltar a fazê-lo, já que a sua escrita me proporciona sempre grandes momentos de introspecção, de reencontro com as emoções mais puras e simples que existem dentro de mim. feelings by Shin Tau Obrigada Mãe por me recordares que é possível inventar uma família, reencontrar a força dentro de cada um oferecendo ao outro aquilo que de melhor ...

Da riqueza humana

Há uns dias atrás, num jantar animado, descobri algo muito curioso sobre a natureza humana. Partilhávamos algumas experiências literárias quando uma Gémeos de ascendente Aquário desabafou que há momentos em que não aguenta a curiosidade de saber o que se vai passar e avança as páginas necessárias para descobrir. Dizia ela que era só para aliviar a tensão que se cria em alguns momentos, voltando depois à página onde estava e continuava, descansada, a sua leitura e o prazer que ela lhe dá. Este desabafo teve em mim o efeito de uma descoberta incrível, pois, confesso, nunca me tinha ocorrido que essa possibilidade existisse. É verdade, serei eu assim tão cumpridora de regras que nunca me tenha ocorrido esta hipótese de não cumprir o esperado. E eu já li muitos livros e posso dizer que sou muuuuito curiosa. Mas esta verdade nunca me passou pela cabeça. Em verdade, recentemente aconteceu-me exactamente o oposto. Ao invés de querer descobrir o que se iria passar, parei e fechei o livr...