domingo, fevereiro 06, 2011

A Torre, o Imperador e a Roda ensinam Alegria a confiar em si e na Vida

Alegria seguia o seu caminho com uma passada calma, não havia necessidade de se precipitar para a novidade. No horizonte começou a desenhar-se uma forma. Aproximando-se desvendou que era uma torre. Estava totalmente aprisionada pela vegetação que há anos não era limpa e se declarara dona e senhora do espaço.

Alegria teve a sensação que aquele lugar era especial, a sua energia tinha uma vibração diferente. Decidiu entrar. No entanto, não era fácil. Procurou por uma entrada e nada! Parou, reflectiu e compreendeu. 

«Peço autorização às Entidades que protegem este espaço para entrar.»

Aguardou uns segundos e na sua frente um raio de luz incidiu sobre um caminho. Estava aberta a entrada.
Assim, penetrou aquele espaço especial. Explorou o terreno circundante à torre e não descobriu nada. Decidiu entrar. Os seus olhos demoraram algum tempo a adaptar-se à falta de luz do lugar. Quando se encontrava em condições de ver, deu de caras com uma mensagem escrita no arco interno da porta. 

«Eu coso a bainha da Espada da Justiça. Teço o cinto da misericórdia com o meu cabelo para que o portador da Espada possa ser anelado com humildade e compaixão.»

Alegria baixou o olhar em meditação. Que lhe diziam aquelas palavras? Não faziam sentido, aquele lugar era, de facto, muito estranho. Auto-sacrifício? Teria ele de começar a usar os seus recursos para poder encontrar tais qualidades?
Enquanto pensava, instintivamente, os seus pés começaram a dirigir-se para o lance de escadas que ali se formava. Treze passos e encontrou mais uma inscrição:

«Eu pulo a espada lassa dos combates. Eu guardo o descanso e a preparação da batalha. Eu levo o salvamento e a luz aos lugares obscuros.»

Ao lado da inscrição apareceu a figura de uma mulher. Semblante marcado, rosáceas vivas, olhos negros e profundos. Um corpo esguio e o cabelo solto brilhante. Alegria, de tão distraído a meditar nas palavras nem se apercebeu da sua presença.

«Passaste o portal da Espada. Que buscas tu, ó Caminhante? Foste impelido por necessidade ou amor?»

Desta vez o peregrino assustou-se pois estava muito longe daquele lugar. Deu um salto para trás e imediatamente a sua resposta saiu: Amor, sempre por amor!

«Compreende, então, que estás no caminho errado. A prática a que te vens dedicando não te está a levar ao caminho que queres. Lembra-te: o amor exige perfeição e a prática, sempre a prática, só a prática te levará lá. Regressa para de onde viste e dedica-te à prática.»

«Não compreendo o que me dizes?!? Estou no caminho errado? mas não cheguei até aqui através do caminho certo? Não estou onde devia estar? Praticar?!? O quê?»

Contudo, todas as suas perguntas permaneceram a flutuar no espaço vazio, a Mulher desaparecera.

Entediado por não ter tido as suas respostas. Confuso por todas as dúvidas levantadas. Alegria sentou-se em posição de lótus e forçou-se a meditar. 
«Quem quer que passe a Ponte d' Espada é impelido pela necessidade ou amor.» «Para grandes males, grandes remédios.» «Dedica-te com coragem e faz a tentativa.» Frases soltas que ecoavam na mente de Alegria. Sinais da confusão instalada naquela Torre. 

A sua mente era um turbilhão de ideias cruzadas pelo agora e pelo antes...Alegria estava perdido.

Aprendera, há uns tempos, uma técnica muito interessante para se acalmar. Quando a sua mente se dispersava e se punha a deambular de enigma em enigma, causando-lhe agitação e perturbando a sua capacidade de raciocinar, Alegria aprendera a focar a sua atenção num momento que encerasse memórias de felicidade. Dessa forma, ao relembrar cada detalhe da memória, o seu coração acalmava e a instabilidade e ansiedade provocadas pela mente agitada, dissipavam-se.

Com as ideias novamente em ordem, voltou a pensar no que acabara de acontecer. Começando pelo início, desde a ombreira da porta até ao desaparecimento da mulher, Alegria reviu cada acção e palavra. Analisou o seu comportamento e compreendeu, finalmente, que aquela Torre era a torre das espadas e lhe fora colocado um teste na frente: confiar nas palavras dos outros ou nas suas?

«Não há verdades únicas, nem certezas absolutas.» Pensava Alegria. « As palavras dos outros são fragmentos da verdade que eu quero construir em mim. A minha personalidade é composta pelas palavras de todos, mas dentro de mim, a minha essência, é o fruto de uma destilação da personalidade. Em mim reside a minha verdade, que, em última instância, é aquela que me orienta.» 

«Ouviste para recuperar a fé que desabava: Não há Graal, não há caminho. Ouviste a tua verdade e passaste a prova, mas o caminho não termina aqui. Continua a tua aventura e descobre-te.»

E o peregrino tornou-se novamente Cavaleiro, munido do seu escudo e espada. O escudo para o defender e a espada para cortar as ilusões do mundo das formas-ilusão, onde nada é o que parece e tudo se transforma.
O mundo das formas-ilusão era astucioso, era preciso estar atento para conseguir distinguir o real do ilusório, o físico do imaginário, o verdadeiro do falso. Porém, Alegria sentia-se confiante. A sua visão era astuta e confiava que seria capaz de analisar cada situação com uma perspectiva aberta e, ao mesmo tempo, desconfiada. Além disso, com o escudo e a espada estaria a salvo.

Uma vez mais, era mantendo os seus medos e dúvidas por perto que estaria desperto o suficiente para analisar imparcialmente cada situação. Quando se sentisse desesperado, receoso ou impaciente, seria um sinal de que estava perante o mundo das ilusões e, uma vez mais, estaria a cair nas incertezas e receios que esse mundo provocava.

O mais importante seria aguardar. Serenar, lembrando-se de momentos bons, de felicidade, e esperar que a mente aclamasse e a visão ficasse clara como a água. Se assim fizesse, nada de errado poderia acontecer. Estaria, então, preparado para a prova seguinte: procurar a Justiça.

Na primeira hora de Lua do dia de Sol, S. Paulo Miki, S. Doroteia, S. Amândio.
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