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"Uma Segunda Juventude" ou a Visão Pessoal de Coppola sobre a carta XVI

Aqui fica mais um texto que já tinha publicado, mas que considero que faz aqui falta e até mais sentido, uma antevisão de mais um fim-de-semana cinéfilo, desta vez com um ciclo do louco, místico, alucinado, perturbado David Lynch. Este texto foi escrito no dia 19 de Abril, três dias depois do meu aniversário!!!

Há uns dias vi um filme que me veio completar a interpretação da carta do Tarot XVI – A Torre.
"Uma Segunda Juventude", o novo filme de Francis Ford Coppola é uma autêntica divagação sobre o ser humano e a sua missão espiritual, e também sobre a própria missão de vida do realizador, que neste filme é também escritor, mas essa parte não será a que me interessa falar, pelo menos não aqui.
Dominic, um velho cansado de viver e demasiado torturado pelas suas escolhas, decide matar-se, terminar a sua jornada pois sente que não há mais nada que possa fazer. Contudo, o Universo tem outros planos para ele e no dia em que Dominic decide levar a cabo a sua ideia, cai-lhe um raio em cima. Contra todas as expectativas não morre e é aqui que o filme se revela no seu intuito. Dominic recupera milagrosamente toda a sua força: a sua pele volta a crescer, os seus dentes caem para que surja uma nova dentição e, finalmente, recupera também a sua juventude. As semelhanças entre o raio divino no filme e o raio divino da lâmina são muitas, ambos surgem naqueles momentos em que julgamos que já não é possível mais nada, que só resta uma saída ou, por vezes, que nem há saída possível.
Não obstante, e como nos é transmitido na carta, quando caímos da torre criamos um duplo, a imagem da lâmina no Tarot de Marselha é clara, há um homem que se vê nitidamente e outro que parece fundir-se ou sair de dentro do primeiro. Assim, também Dominic se vai apercebendo que depois daquela descarga de energia ele gerou um outro ele que nós apenas vemos através do espelho.
Quem é este duplo que cai connosco da torre, já existia ou é criado nesse momento? A interpretação dependerá de cada um, ou de cada momento, pois ao longo da vida as experiências vão-nos mudando (ainda bem). Para mim, esse duplo é o Eu Superior que se torna visível, que eu aceito ver pois reconheço que preciso dele, é a representação de um despertar para algo mais do que este mundinho quotidiano, é aceitar a nossa condição divina, é aceitar que sou uma centelha da energia de Deus e que por tudo isso o posso ver.
À medida que Dominic vai despertando, as suas faculdades psíquicas também e é uma beleza ver como Coppola transpõe para o cinema essa visão do que é ter a percepção desenvolvida, de como se processa esse mecanismo. Quando Dominic passa noites em claro e no dia seguinte não se sente cansado, percebe que esteve a aprender e que o outro esteve a dormir, percebe que é possível fazer aquilo que todos nos dizem ser impossível, que a Ubiquidade é um dom apenas de Deus.

Ora se eu assumo que sou uma centelha da luz divina, também devo assumir que tenho em mim as qualidades e capacidades dessa luz divina, em menor número pois sou um reflexo da luz e não a fonte de origem da luz. Sim! É uma declaração forte, que mete medo, assusta… pois é a responsabilidade sobre a nossa vida e sobre o que fazemos com ela assusta, mas também é um grande poder, pois somos nós que a conduzimos e não os outros. Sim, com grande poder vem grande responsabilidade, já dizia o tio-avô de Peter Parker, mas vem também o grande prazer de amadurecer. Se chegar ao fim da minha jornada e souber que todas as escolhas foram feitas por mim e conscientemente, que agi em todas as circunstâncias da melhor forma que fui capaz na altura, estarei sem dúvida em paz e o meu coração será mais leve que uma pena, pois são as mágoas que o tornam pesado. O que nos leva ao fim do filme, onde finalmente ele encontra descanso, pois as suas decisões foram feitas em paz, em consciência. Dominic, reparem na proximidade do próprio nome da personagem com o nome Dominus, supera a sua prova, aproveita da melhor forma a Torre, aprende o que tem a aprender e avança. Segue a sua Estrela, encontra a sua percepção e deixa-a actuar para realizar a grande obra, escolhe e fica preparado para o seu novo início e para o surgimento da luz na reintegração no Cosmos. Esta obra foi sem dúvida uma agradável surpresa, pois poder através da sétima arte completar o círculo à volta desta lâmina tão poderosa quanto importante, foi algo inesperado e pessoalmente gratificante. Aconselho vivamente este filme, apesar de se perder durante uma segunda parte, tentando tocar vários ramos do misticismo, Coppola consegue levar a cabo a sua missão e mostrar que nem todos teremos segundas hipóteses na mesma encarnação e que por isso é melhor começar a viver a vida. Para além de todo o filme valer pela interpretação notável de Tim Roth, que faz um Dominic único.
Muito haveria ainda para divagar sobre o filme, mas o interesse foi mesmo pô-lo em correspondência directa com a carta do Tarot, esse livro animado de ensinamentos sobre o mundo.

Num dia de São Florêncio, São Florindo e de Anael, Regente da Energia de Vénus

Comentários

  1. Cara Shin Tau

    Mais uma vez "superiormente" esclarecedora. Confesso que nunca vi este filme nessa pespectiva.
    Quanto ao resto que escreveu concordo em absoluto, o nosso caminho muda-nos tanto em termos espirituais como fisicos, aumenta a capacidade de ligação ao Uno, reduz a densidade do nosso corpo, dai que alguns se abstenham de determinados alimentos, a nossa situação assim o vai exigir.
    Eu não sei precisar o termo mas julgo que seja uma ansiedade/curiosidade que me leva todos os dias a visitar o seu blog e a ler os seus posts.
    Continue o bom trabalho

    Saudações

    O Viajante

    ResponderEliminar
  2. Lamento só agora responder mas estive ausente. Fico contente com as suas palavras mais uma vez.
    Quanto à sua ansiedade/curiosidade revelam exactamente isso, é uma pessoa interessada nestes assuntos e aqui, como em outros lados, pode encontrar informação útil. Depois, ajuda partilharmos em parte as mesma ideias. É sempre um gosto ler os seus comentários como os seus artigos. A partilha faz-nos crescer!

    Obrigada pela sua presença iluminadora.

    ResponderEliminar

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