terça-feira, julho 28, 2009

O anjo da Morte

- O homem vem, constrói, tem a esperança de que aquela obra que está a realizar seja importante - continuou ela. - Mas, de um momento para o outro, descobre que estava a exigir mais do que a terra podia dar. Então deixa tudo e segue adiante, sem se dar conta de que transportou outros para o seu sonho - outros que, por serem mais fracos, acabam por ficar para trás. Como as cidades fantasmas no deserto. (...)

- Alguém disse que a terra produz o necessário para satisfazer a necessidade, e não a cobiça - continuou a velha.

- A Senhora acredita em anjos? (...)

- Quando somos velhos, e estamos mais perto da morte, passamos a acreditar em qualquer coisa - respondeu ela. - Mas não sei se acredito em anjos.

- Eles existem.

- Você viu algum? - havia uma mistura de incredulidade e esperança nos seus olhos.

- Converso com o meu anjo da guarda.

- Ele tem asas? (...)

- Não sei, ainda não o vi. (...)

- Também sei que vou morrer - disse Chris.

- Não, não como um velho sabe. Para si a morte é uma ideia remota que pode acontecer um dia. Para nós, é algo que pode chegar amanhã. Por isso, muitos velhos passam o tempo que sobra a olhar apenas uma direcção: o passado. Não é que gostem muito das lembranças; mas sabem que ali não vão encontrar o que temem.
Poucos velhos olham para o futuro, e eu sou um deles. Quando fazemos isso, descobrimos o que o futuro realmente nos reserva: a morte. (...)

- A morte é um anjo - disse Paulo. - Eu já o vi duas vezes nesta encarnação, mas muito rapidamente, não deu para ver o seu rosto. Entretanto, conheço pessoas que já o viram, e outras que foram transportadas por ele, e me contaram depois. Essas pessoas dizem que o seu rosto é bonito, e o seu toque é suave. (...)

- Tem asas?

- É formado de luz - respondeu ele. - Assumirá a forma que for mais fácil para ser recebido, quando chegar o momento.

A velha ficou algum tempo quieta. Depois levantou-se.

- Perdi o meu medo. Rezei agora em silêncio, e pedi que o anjo da morte tivesse asas quando me viesse visitar. O meu coração diz-me que serei atendida. (...)

in, As Valquírias, Paulo Coelho, Pergaminho

Na primeiro hora de Mercúrio do dia de Marte e S. Inocêncio, S. Vitor, S. Nazário, S. Celso
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