segunda-feira, maio 19, 2008

Fernando Pessoa e o Sol

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo.
Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...

Alberto Caeiro

Sempre adorei este poema do heterónimo de Fernando Pessoa e hoje percebo melhor porquê. Este poema para mim reflecte muito bem a lâmina do Tarot XIX- O Sol. Nesta carta a lição a retirar é que o mundo já não é um ensinamento, que depois de todas as provas o Herói pode finalmente desfrutar da alegria de viver, de um mundo interior pleno e calmo. Enquanto que na carta anterior, A Lua, o herói começava ligar-se ao seu Eu Interior aqui a ligação é completa. Esta carta mostra-nos que o objectivo da nossa viagem é o de nos voltarmos a religar com o Cosmos, limpando todas as ideias formatadas de divisão, de dualidade, de isolamento, para podermos finalmente aproveitar a vida como fazíamos quando éramos crianças naquelas tardes de sol típicas das férias, em que partíamos à aventura pelo simples facto de ser uma aventura e sem interesses no que poderíamos descobrir.
As duas crianças nesta carta mostram-nos exactamente isso, elas estão a brincar naturalmente por baixo do Sol, que as banha com a sua energia. O facto de termos aqui duas crianças não é obviamente um pormenor, mas sim um símbolo que nos pode ajudar a compreender parte da viagem.
A criança é o que nos liga ao nosso Eu, quem tiver o seu Jardim Secreto, o Jardim da Primavera, como eu lhe chamo, sabe perfeitamente como é a sua criança. Quando começamos a crescer, faz parte do processo começarmos a definir o nosso Ego, e à medida que o vamos fazendo, a criança vai-se ofuscando. Numa segunda fase da nossa vida, depois de termos colocado a nossa marca no exterior e dominado o Ego, voltamo-nos para dentro e partimos na busca da criança perdida, pois ela já existia antes e existirá depois de nos irmos, ela é e sempre será, por isso se torna fundamental que a reconheçamos.

Esta separação que é feita é extremamente importante pois é sempre necessário separar o corpo do espírito, compreendendo cada um separadamente, para depois em consciência poder voltar a uni-los. Só assim poderá surgir a harmonia do casamento místico dos opostos.

Quanto ao Sol, que dá o seu nome à carta, ele representa a esperança que temos na Ordem do Cosmos. Todas as noites nos despedimos dele, mas sabendo que de manhã quando acordarmos tudo estará em ordem, o Sol terá voltado da sua Viagem pelo Mar Nocturno e já estará alto no firmamento, irradiando a sua energia vital para que possamos crescer e viver.

Este astro foi e sempre será adorado pelo Ser Humano exactamente pela sua importância para a vida neste Planeta. Assim, esta carta pressupõe uma iluminação por parte do herói, mas como Buda disse:

Todos os seres nascem iluminados, mas é preciso uma vida inteira para descobri-lo.
O Sol traz-nos a luz ao pensamento e à vida, ele mostra-nos que nós deveremos ser o centro do nosso mundo e que com a presença do muro, que nos protege, mostra também que ele está dentro de nós e que poderemos sempre irradiar a nossa luz interior para o exterior, mas isso só poderá ser possível se soubermos bem quem somos.

Num dia de Lua, do Arcanjo Gabriel e de São Ivo
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